quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Lar

Já faz algum tempo que estou em Espanha e vou escrevendo as minhas experiências que se focam essencialmente na vida fora do lar ou nos passeios/festas da residência, ou seja, toda a parte óptima desta experiência.

Nem tudo é perfeito (senão seria uma chatice) e, obviamente, há uma parta "menos boa". Todavia, não deixa de ser igualmente "encantadora" e positiva para mim.

Para quem não sabe, eu trabalho praticamente com pessoas com demências. Inicialmente foi muito difícil para mim lidar/encarar as coisas, pois, todas essas pessoas eram como eu... sim, como eu. Pessoas com vida normais, rotineiras, pães/mães que podiam ser médicos ou trolhas e de um momento para o outro, as coisas mudam por causa duma patologia sem travão, onde "a inteligencia" simplesmente parece que desaparecer. Agora que já encaro as coisas com mais naturalidade decide começar a falar, de forma breve e não só neste post, sobre o que é para mim estar neste lar. 

Trabalhar com pessoas dementes é exactamente igual a trabalhar com crianças de 3 anos sem regras. Se não têm o que querem fazem birra, da maneira que podem, choram/gritam, tentam bater. São incrivelmente engenhosos neste ramo, pois já vi coisas...extremamente..."inovadoras". Têm medos, muitos medos de coisas sem sentido e, apesar de serem medos incrivelmente raros e a maioria estúpidos, sofrem de verdade com isso e protegem-se com atitudes capazes de irritar um santo. A demência...é um tipo de doença que faz sofrer a família e não tão directamente a pessoa com esta patologia, pois, para a pessoa com demência, de uma forma muito redutora (e não realista), não sabem que estão neste mundo. Se têm filhos, se são casadas, solteiras ou viúvas, o que gostavam/gostam, "parece" que apenas necessitam de comer e dormir.

Nem tudo é negro. Há sempre o "lado bom", por mais que custe ver. Para todas essas pessoas, cuja a vida fugiu dos seus planos, muito se resume em dar e receber amor. Sentimento este que muitas vezes nos esquecemos, verdade? Há tanta coisa para fazer, a vida anda a mil à hora e nós temos que acompanhar senão ficamos para trás, rotina, exigências, stress e mais stress. Chegamos a casa e não temos tempo para nós, nem para os outros. Queremos apenas satisfazer o básico: comer e dormir. Pomos as coisas demasiados complexas, chegando ao cúmulo de só ter tempo para comer e dormir, esquecendo coisas que nos preenchem e que são bem mais importantes que o trabalho. Desse pondo de vista, uma pessoa com demencia é bem mais feliz que todos nós, come, dorme e ainda dá amor em troca de muito amor. Uma maneira de vivencia bem mais simples e lógica.
A conclusão a que chego é que todos nós temos que ser mais dementes durante a vida, agora e já, é urgente.

Apesar deste lado que pode ser visto como "menos" bom, aprendo muito, não só sobre a minha área, mas sobre a vida porque tenho tesourinhos preciosos comigo. Estar aqui cada vez se revela mais magnífico e maravilhoso, porque eu recebo bem mais do que dou.






Beijinhos e sejamos dementes =D

Sem comentários:

Enviar um comentário